“O Estado Brasileiro optou pela guerra civil, uma guerra dolorosa que empilha cadáveres com frieza nazista e fúria primitiva”. Luís Mir
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Dedico esse artigo a seguinte reflexão: Porque o Estado brasileiro é tão violento com os pobres? Pensar sobre isso já me consumiu três anos de fosfato e neurônios e confidencio que nos últimos tempos escrever sobre esse tema virou obsessão. Principalmente por que acabo de fechar um ciclo de estudos e debates muito influenciados por duas fontes: A primeira - o documentário e o livro “Falcão. Meninos do tráfico” produzidos pelo rapper MV Bill e Celso Athaide; A segunda - O livro “Guerra Civil. Estado e trauma.” do professor Luis Mir.
Atormenta-me também, o fato, de que a qualquer momento eu, meus parentes ou amigos, cidadãos que fazem parte daquela parcela da população brasileira que o aparato polícial-militar adora “dá uma geral” e “passar o rodo” estar, hipoteticamente, estampando alguma página desses jornais de R$ 0,25 centavos que explicam bem resumido os fatos, presumindo sempre que vítima e algoz são culpados de alguma coisa, exatamente, por serem pobres. Enfatizando aquela máxima nojenta da elite desse país: se é pobre é violento e culpado ou no mínimo suspeito.
No livro do professor Luís Mir “Guerra Civil. Estado e Trauma” (2004) encontrei algumas pistas para tentar entender esse emblemático esquema mental da burguesia tupiniquim. Segundo o mestre Mir, essa característica tão peculiar de nossa sociedade, deve-se ao fato do Estado brasileiro ser o principal produtor e propagador da violência contra os pobres. Desde a sua fundação (quando nos livramos de Portugal em 1822) até os dias atuais, os governos burgueses (conservadores, liberais e neoliberais) não fizeram mais nada além de perseguir violentamente as etnias (índios, negros e mestiços) majoritariamente pobres, com o objetivo de evitar que as mesmas viessem a se libertar da dominação da etnia branca de origem européia, vindo a disputar com essa o controle e o poder estatal. A política do Estado Brasileiro desde então é: aumentar a repressão sobre a maioria pobre para garantir a “paz social” da minoria rica.
Quando o país tornou-se uma república, nos idos anos de 1889 e o povo passou a ter direito de decidir o destino da nação, a minoria rica, a famosa burguesia, logo deu um “jeitinho” para controlar o Estado. E tome Política de branqueamento, Voto de Cabresto, Coronelismo, Política do Café com Leite e dos governadores, golpe de Getúlio Vargas em 1930, golpe dos militares em 1964, etc. Nosso amado Brasil havia tornado-se um Estado republicano e democrático mantendo sua democracia no jogo do cinismo político, da manipulação, do golpe e da violência.
Analisando essa trajetória do nosso “Estado republicano e democrático”, tenho que concordar com o professor David Graeber (ex-docente da Universidade de Yale nos E.U.A, demitido sumariamente no final de 2005, por ser um dos maiores teóricos do anarquismo na atualidade) quando ele afirma que “a democracia majoritária é inseparável da violência Estatal” (Caderno Mais. Folha de São Paulo. p.05. 14/08/2005). Em resumo, “dar porrada” garante a democracia.
Tanto os professores Luís Mir quanto David Graeber me ofereceram pistas para entender o porquê do Estado Brasileiro, sistematicamente, perseguir os mais pobres. Porém, tenho que admitir que o documentário e o livro “Falcão. Meninos do tráfico” me aproximaram mais da resposta, do entendimento, da verdade.
Nas favelas e periferias que convivem com o tráfico de drogas – de norte a sul do país, como o documentário abordou nas mais de 90 horas gravadas – é a violência o mecanismo usado pelas crianças e adolescentes dessas comunidades para construir uma identidade social. Isso é novidade? Talvez não para mim ou para quem viva nos bairros de periferia dos grandes centros urbanos, mas para a burguesia é.
Talvez a “boa nova” que mais assuste a essa elite, não seja a excessiva violência que perambula dentro das cidades do país e sim, a certeza de que o uso da violência não é monopólio exclusivo do Estado. Apresentar-lhes uma sociedade explorada, excluída, faminta, armada com um fuzil russo AK-47 e uma completa ausência do Estado, deve parecer-lhes a própria visão do inferno.
Para a sociedade brasileira, construída sob os pilares morais conservadores de uma elite estúpida e medíocre “Falcão. Meninos do tráfico” e “Guerra Civil. Estado e trauma” expõem de maneira crua e objetiva uma realidade que golpeia as pretensões burguesas em manter seu projeto de sociedade, pautado na moral do capitalismo selvagem e do individualismo exacerbado, pois existem espaços urbanos (favelas e periferias) onde palavras como: mercado e consumo são materializados em forma de violência. E o ser violento não é inerente aos pobres. É uma característica do Estado e das elites brasileiras que transformaram a exclusão social em um “estilo de vida”, pois a “benevolência” de ambos para com os mais desfavorecidos é tranquilamente debilitável nos impostos ou explorados pelas ONGS de fachada. Considerando esses aspectos, o tráfico e a violência tornam-se a antítese de uma democracia perversamente burguesa. Se não concordam, meus queridos leitores leiam essas sugestões e tirem suas conclusões. Tenho certeza, chegaremos a uma premissa em comum: “NÃO HÁ NADA DE NOVO SOB O SOL!” Um grande abraço!
Leiam e assistam:
- Cronicamente inviável (Direção: Sérgio Bianchi).
- Nada a declarar ( Direção: Acioli - veja AQUI. )
- Quanto vale? Ou é por quilo? (Direção: Sérgio Bianchi).
- Noticiais de uma guerra particular. (Direção: Kátia Lund e João Moreira Sales).
- COIMBRA, Cecília. Operação Rio. O mito das classes perigosas. Um estudo sobre a violência urbana, a mídia impressa e os discursos de segurança pública. Rio de Janeiro: oficina do Autor (Intertexto), 2001.
- FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. 23ª Edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
- MIR, Luís. Guerra Civil. Estado e trauma. São Paulo: Geração Editorial, 2004.
- ATAHAYDE, Celso; Mv Bill. Falcão. Meninos do tráfico. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2006.
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