Entre 1987 e 1989, durante as festas juninas na Barragem Santa Lúcia(BH), pessoas pagavam para prender ou soltar amigos e/ou inimigos em uma brincadeira conhecida como “A cadeia”. Era simples: durante a festa junina, as pessoas organizavam “barraquinhas” para arrecadar dinheiro (quentão, canjica, pipoca, cachorro-quente, maçã-do-amor, correio-elegante e… cadeia!).
Naquela época, embora o universo da violência fizesse também parte do nosso cotidiano, festas, como as juninas, aconteciam nas ruas da comunidade. Hoje, como sabemos, a maioria dos eventos acontece às margens da Lagoa da Barragem. Pois bem!
A cadeia era construída de madeira e ficava em um local estratégico o suficiente para impedir tentativas de fuga. Havia um preço estabelecido, como um ticket, que alguém pagava para ver os “guardas” da cadeia irem atrás do/da sujeito a ser recolhido/a”. Além do espetáculo da “prisão” por si só, outro momento forte era quando a pessoa, já presa, tinha que pagar para sair, ou esperava que alguém o fizesse.
Era como um leilão humano: havia os que ficavam presos mais tempo, havia os que conseguiam a liberdade mais rapidamente. Tudo dependia de quanto dinheiro o/a preso/a tinha, ou… se entre os conhecidos havia alguém disposto/a “dar uma ajudinha”.
O fato é que a liberdade estava comprometida, mesmo em uma festa pública, na rua. O espetáculo do prazer necessitava da dinâmica do encarceramento, de um tom de tortura, uma pitada de violência. Sim, porque não preciso falar das tentativas de resistência de alguns/algumas quando “os guardas” chegavam para prender, não é?
Sempre me perguntei se o que inspirou a criação dessa “brincadeira” foi a associação do nome – cadeia – com o nome do principal elemento da festa junina – “quadrilha”. Ou se tudo não passou de mera coincidência.
Interessante notar que esse perfil de brincadeira em nada é novo se pensamos com a perspectiva histórica de interpretação do mundo. Vejamos. No período da escravidão, quando vigorava a lógica da propriedade do corpo do Outro enquanto minha propriedade (‘minha’, leia-se dos traficantes”/donos de escravos). Alguns escravos conseguiam, em tese, por exemplo, comprar a própria liberdade, ainda que não a desfrutassem na prática.
Outra lógica desse período era o espetáculo da prisão/punição em pelourinhos. A violência das chicotadas no corpo do escravo, no tronco, em praça pública, alimentava o prazer dos “guardas/capitães/senhores-do mato”, ao passo que servia como “exemplo” do que aconteceria com os demais caso eles tentassem atravessar as bordas do que lhes era permitido.
Se olhamos rapidamente os jornais e as notícias sobre o carnaval 2009 na Bahia, em nada nos surpreende a moderna tática da política de segurança pública do estado. Com o pomposo nome de Posto de Policiamento Integrado (PPI), a polícia irá instalar algumas dezenas de jaulas para enjaular foliões tidos como desordeiros, durante os dias de festejo soteropolitano.
Aqui, não é preciso ser nenhum/a ‘expert’ para saber quem estará dentro dos cordões dos blocos e trios elétricos e quem estará enjaulado/a. Para começar, já sabemos quem tem dinheiro/poder suficiente para estar dentro ou fora da reinvenção dessa idéia foucaultiana de vigiar e punir.
No senso de 2000, dos 2,5 milhões de soteropolitanos/as 86% assumiram ser negros e mestiços. O que significa para o imaginário nacional implantar, durante o carnaval, jaulas públicas em uma cidade cuja maioria da população é negra?
Segundo Hamilton Borges, ativista do grupo Reaja ou será morto/a, “As jaulas são o símbolo de nosso progresso na política de promoção da igualdade racial. Eles nos tratam igual a macaco, Carnaval é um safári e a polícia vai dar proteção aos turistas (leia-se brancos) durante o circuito.”
Concordo com Hamilton, e talvez eu diria que mais que tratar um ser humano como animal – posto que, geralmente, animais é que ficam enjaulados –misturar violência, performance pública, prazer/lazer e controle de corpos, especialmente de corpos negros é uma prática bastante recorrente e contínua de dominação tanto na sociedade brasileira quanto em uma perspectiva global.
A dominação como espetáculo é uma ferramenta de reforço do abuso, iniciado no encontro entre colonizador e colonizado, perpetuado pela lógica da escravidão, e transformado em outros signos mais modernos: corpos negros enjaulados e, muitas vezes, enjaulando outros. Na prática, o controle de um grupo sobre outro. Tudo, no entanto, a serviço da mesma supremacia racial branca e rica.
Seja na festa junina em Belo Horizonte, seja no carnaval de Salvador o espetáculo e a performance da violência funcionam com a mesma propriedade. Nada de brincadeira, pois!
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