As meninas do Morro
Giselle Oliveira
Jornalista, pós-graduada em imagens e culturas midiáticas pela UFMG
e integrante do projeto Comunidade Interligada
   

“Por trás dos olhos das meninas sérias”. Era esse o nome de uma das peças em cartaz da campanha de popularização do teatro de 2008. Não sei se está de volta este ano. Também não fui ver o espetáculo. O que verdadeiramente me chamou a atenção foi o título da peça. Ele pode remeter a muitas coisas, permitir muitas interpretações. A mim traz a imagem da menina, que permanece em todas as mulheres, que mais cedo ou mais tarde se olham no espelho e se veem através de seus próprios olhos. E se deparam com as muitas meninas que foram e as que deixaram de ser.

Há dias em que observo as meninas de nossa comunidade e me pergunto, como já me perguntei em vários dias, que meninas serão quando se olharem no espelho. Serão princesas ou plebéias? Meninas alegres ou tristes, cheias de esperança ou amarguras, aceitas ou discriminadas pela cor que carregam na pele ou pela poeira do chão de onde vieram? Seriam meninas-mães? Sim, muitas delas serão meninas-mães quando ainda deveriam ser apenas meninas nos colos de suas mães.

A cor que trazem nas roupas e nas unhas, os enfeites no cabelo, a voz estridente e por vezes irritante quando veem um menino, a pose do desejo de já serem mulheres quando ainda brincam de amarelinha e queimada nas ruas e becos traduzem uma das fases mais mágicas do sexo feminino.

O olhar ainda perdido de quem não sabe exatamente para onde ir, faz lembrar que são meninas alegres, muitas ainda sem grandes lesões na alma e que precisam de orientação e proteção.

Com contatos cada dia mais precoces a cenas de nudez e relacionamentos que duram o tempo de surgimento e recolhimento da lua, as meninas tem abandonado cada vez mais cedo as bonecas que lhes serviam de companhia, para agilizarem de maneira desorganizada e desorientada seu próprio rito de passagem. E tornam-se mulheres-meninas quando eram para serem meninas-mulheres.

As respostas que virão dos olhos das meninas sérias de nossa comunidade também dependem da orientação e acolhimento que receberão em suas famílias, escolas, igrejas, amigos, comunidade.

Cuidemos para que os olhos que se interrogarem em alguns anos tragam mais momentos de criança travessa que de meninas atarefadas com crianças travessas.  

 
AUM - Associação dos Universitário do Morro - aum@morrodopapagaio.org.br