O grande estudioso Roberto da Matta assim intitulou um dos seus livros mais conhecidos pelos estudiosos. Adotamos esse título apenas como provocação, com o intuito de poder demonstrar que, historicamente, no Brasil monárquico, durante o decorrer do séc. XIX, carnaval era sinônimo de farra irresponsável, coisa de "malandro", que por isso mesmo sofria a repressão policial da época. Não por acaso o "entrudo", ou seja, a primeira manifestação de carnaval introduzida no Brasilcolonial pelos portugueses, que teve o seu auge durante a monarquia imperial, era uma baixaria sem limites. A diversão dos foliões consistia não apenas em jogar água uns nos outros, mas também cal, vinagre, groselha, vinho e o que de líquido e orrendo se encontrasse pela frente. Enfim, a brincadeira tinha por objetivo molhar ou sujar as pessoas desprevenidas, alvo predileto dos foliões.
A jornalista Daniela Vargas, num artigo publicado no Estado de Minas (01/02/08), conta que, por volta de 1870, numa famosa revista da época, o Imperador Dom Pedro II foi desenhado com o corpo banhado de fezes atiradas pelos foliões. Portanto, o carnaval brasileiro atual tem suas origens nessa versão portuguesa (o entrudo) pouco civilizada de diversão carnavalesca.
Se por um lado é certo que o carnaval surgiu na Europa, por outro lado as suas origens são obscuras. Daniela Vargas acredita que ele surgiu em meados do ano 600 a.C. durante o Império Romano. Outros estudiosos apontam datas mais ou menos recentes. De qualquer modo, sabe-se que é de origem antiga, embora a fase de maior difusão do carnaval na Europa deu-se a partir da passagem da fase medieval para o período moderno.
Do ponto de vista etimológico, a palavra "carnaval" tem sua origem no latim: "carnem levãre", "carnelevãrium", com outras variações do próprio latim para designar o vocábulo. De qualquer maneira, o significado seria "abandonar a carne", ou ainda, "tirar a carne", ou seja, não comer carne já a partir da véspera da quaresma. O que tem a ver o carnaval, seja ele antigo ou atual, com o sentido religioso e etimólógico da palavra? A rigor, absolutamente nada! O que há é apenas uma proximidade de datas entre a maior celebração "mundana" da terra (o carnaval) e a importante celebração religiosa da quaresma.
Não queremos aqui entrar no mérito das riquezas peculiares dos "carnavais brasileiros". Isso mesmo, no plural, já que no Brasil uma coisa é o carnaval de rua e de massa de Salvador, Olinda e Recife, outra coisa é o carnaval do Rio, mais sofisticado e elitizado. Sim, elitizado, pois os maiores protagonistas dos desfiles das escolas de sambas são os rostos mais famosos e bonitos do Brasil e não mais os moradores dos morros cariocas.
Deixando de lado a polêmica, uma coisa é certa: não há lugar neste mundo onde os carnavais brasileiros não são conhecidos e admirados - não por acaso trata-se de uma das maiores fontes de renda do turismo brasileiro. Porém, durante anos ficamos - mas ainda somos! - estigmatizados como sendo "do país do café, do futebol, do samba e do carnaval".
Será que somos apenas um povo alegre, apaixonado por futebol, samba e carnaval? Tá na hora, aliás, está passando da hora, de mostrarmos para o mundo que somos muito mais que isso.
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